2. ENTREVISTA 21.11.12

GUSTAVO FRUET - "NO  FCIL SER OPOSIO" 

Ex-deputado que deixou o PSDB para se eleger prefeito de Curitiba com apoio do PT diz que o Brasil tem a cultura da adeso ao poder

 MENSALO: "O julgamento vai gerar efeito redobrado de preveno:
 
H sete anos, o ento deputado tucano Gustavo Fruet era o pesadelo do PT. Como sub-relator da CPI dos Correios, debruou-se sobre a movimentao financeira das empresas de Marcos Valrio e puxou o fio da meada do esquema do mensalo. No auge das investigaes, o parlamentar chegou a acusar Lula de crime de responsabilidade e votou pela cassao de Jos Dirceu. Fruet no imaginava que sua vida mudaria tanto. Em 2011, trocou o PSDB pelo PDT e, em 2012, foi eleito prefeito de Curitiba numa coligao com os petistas, que abraaram constrangidos sua candidatura. Nem Lula nem Dilma Rousseff pisaram em seu palanque, tarefa assumida pela ministra Gleisi Hoffmann em troca do apoio pedetista para sua provvel candidatura ao governo estadual, em 2014. Como era de se esperar, Fruet foi criticado pela aliana com o PT, mas no se arrepende. Hoje, ele diz que a condenao dos rus do mensalo  positiva para o Brasil e afirma que o julgamento do Supremo Tribunal Federal tem carter educativo. O PT da Gleise adotou uma postura diferente do PT do Jos Dirceu, disse Fruet, em entrevista  ISTO. Esse PT no vai brigar com o Supremo, no vai brigar com os fatos.

"O PT da ministra Gleisi Hoffmann adotou uma postura diferente da do PT do ex-ministro Jos Dirceu"

"No escondi o ministro Lupi na campanha. Ele  que disse que no queria atrapalhar a eleio"

Isto - A presidenta Dilma Rousseff o recebeu h poucos dias no Palcio do Planalto. Sobre o que conversaram?

GUSTAVO FRUET - Falamos muito sobre gesto, especialmente transporte, segurana, sade e educao. Ela enfatizou que muitas vezes h recursos disponveis, mas nem sempre as prefeituras apresentam bons projetos. Ento, sugeriu que eu capriche na equipe. Disse que foi bom eu comear pela prefeitura e que tenho grande futuro pela frente.  

Isto - Futuro no PDT ou no PT?

por Claudio Dantas S - No entramos nesse detalhe. At contei um pouco do cenrio partidrio no Estado, mas a conversa ficou focada na gesto. A inteno dela foi me incentivar. 

Isto - Como o sr. classificaria sua campanha para a prefeitura?

por Claudio Dantas S - Foi uma campanha de superao. Aprendi vrias coisas, como a distncia enorme que existe entre a poltica local e a nacional. Fiquei em Curitiba 18 meses sem retornar a Braslia. Foi uma reeducao.  um erro associar o resultado municipal com a campanha presidencial. Se a gente fica muito voltado para a poltica nacional, quando volta para a local  chocante. 

Isto - O que  mais chocante?

por Claudio Dantas S - No h a mnima identidade ideolgica e doutrinria entre os partidos. Vivi em Curitiba um exemplo prtico. Quando cheguei aqui, descobri que o PSDB local no tinha qualquer comprometimento com o projeto nacional, queria apenas estar com o governo a qualquer preo. 

Isto - Sua ida para o PDT tambm foi interpretada como oportunista.

por Claudio Dantas S - Eu no tinha muita opo e precisava criar uma alternativa. Esse grupo que dava suporte ao PSDB controlava todos os partidos. Numa das ltimas conversas que tive aqui, o Joo Claudio Derosso, que controlava a legenda com mo de ferro, me disse que se eu sasse s teria o PDT ou o PT. Como eu tinha um histrico de aliana com o Osmar Dias (senador do Paran por dois mandatos consecutivos), optei pelo PDT. No foi uma deciso meramente pragmtica, pois h identidade.  

Isto - E como se deu a construo da aliana com o PT?

por Claudio Dantas S - O PT passou primeiro por um processo de disputa interna. O grupo da Gleisi Hoffmann e do Paulo Bernardo ganhou a conveno para fazer a coligao, mas perdeu na indicao da candidata  vice-prefeita. Quem ganhou foi o grupo oposto dentro do PT, o que legitimou a coligao. 

Isto - H sete anos, quando o sr. estava no PSDB, essa parceria era inimaginvel.

por Claudio Dantas S - Digo que cada um  guardio de sua histria e de suas convices. Eu preservei todo o trabalho que fiz no Congresso. Essa aliana era programtica e local. Prova disso  que no tive a presena do ex-presidente Lula nem da presidenta Dilma no meu palanque. 

Isto - O sr. acredita que o ex-presidente Lula guarda mgoa da poca da CPI?

por Claudio Dantas S - O Lula  muito pragmtico, mas  fato que ele s gravou para a campanha da vice-prefeita e para os candidatos a vereador do PT.  evidente que aquele processo do mensalo deixou sequelas, mas acho que mgoa, no. Nunca ataquei deliberadamente, nunca xinguei.

Isto - Arrepende-se de ter enfrentado o PT e Lula na ocasio?

por Claudio Dantas S - No. Acho que tive uma atitude consequente, o momento exigiu isso. E mesmo hoje mantenho minha postura. 

Isto - O julgamento do mensalo chegou  fase final. Est satisfeito com a condenao do ncleo poltico?

por Claudio Dantas S - Acho que falar em satisfao  tripudiar com um fato delicado. O ncleo poltico foi condenado e com penas altas, o que  um mrito para o Brasil. Vale dizer que o Supremo reconheceu a validade das provas levantadas pela CPI e isso demonstra a correo de nosso trabalho. Estabelece um padro que vai gerar efeito redobrado de preveno O julgamento tem carter educativo. 

Isto - Petistas passaram a atacar o STF, tachando o julgamento de rito sumrio. Concorda?

por Claudio Dantas S -  a nica sada deles. Com a condenao do STF, eles no tm a quem recorrer. E isso muda tambm a discusso sobre o foro privilegiado. Esse ataque ao Supremo no  uma coisa do PT como um todo. O grupo da Gleisi adotou outra postura.

Isto - Quer dizer que o PT da Gleisi  diferente do PT do Dirceu?

por Claudio Dantas S - O PT da Gleisi adotou uma postura diferente, inclusive em relao a esse episdio. Esse PT no vai brigar com o Supremo, no vai brigar com os fatos. De alguma maneira, avaliou que precisa absorver isso e pensar para a frente. 

Isto - Sua aliana com a Gleisi significa apoio  candidatura dela para o governo do Estado em 2014?

por Claudio Dantas S - Esse  um processo natural. Apesar de o PT ter sido derrotado em vrias cidades do Paran,  preciso lidar com essa nova correlao de foras. Ento, esse  o caminho. No entanto, acho um erro querer projetar o cenrio eleitoral de 2014.  precipitado.

Isto - A ausncia de Lula e Dilma no palanque o prejudicou?

por Claudio Dantas S - Como disse, foi uma eleio local, sem a presena de figuras nacionais. A exceo foi a ministra Gleisi, que  do Paran, e do senador Cristovam Buarque e da Marina Silva, que veio na ltima semana, quando eu ainda estava atrs nas pesquisas. Essa campanha derrubou vrios mitos.

Isto - Quais?

por Claudio Dantas S - Tamanho da coligao e tempo de tev no garantem a vitria. Ter mais dinheiro tambm no. E at as pesquisas de inteno de voto podem no refletir a realidade. No primeiro turno, faltavam recursos, eu tinha menos tempo de televiso que o prefeito e aparecia atrs nas pesquisas. Mesmo assim ganhei.

Isto - Quando o sr. esteve com Lula em junho, conversaram sobre o julgamento do mensalo?

por Claudio Dantas S - Sim. Ele no entendia como o Jos Dirceu poderia ser condenado se o Roberto Jefferson falava que no tinha provas. Eu dei minha verso, lembrei que Dirceu tambm foi cassado por votos de pessoas de dentro do governo e havia uma disputa interna. 

Isto - O temor de ser vinculado  corrupo que combate fez com que evitasse a presena do ex-ministro do Trabalho Carlos Lupi, presidente do PDT, em sua campanha? 

por Claudio Dantas S - No escondi o Lupi. Ele veio para c, foi objetivo, fez uma doao de R$ 100 mil do PDT e se colocou  disposio. Ele disse que no queria atrapalhar a eleio.

Isto - O sr. tomou precaues para evitar o caixa 2 na campanha?

por Claudio Dantas S - Tomei cuidado redobrado. Reuni a equipe e disse s eu arrecado, s eu autorizo despesa.  um negcio muito srio. s vezes, pode ser uma coisa pequena de algum pedir doao em nome do candidato, mas l na frente pode dar problema. 

Isto - Numa campanha municipal  mais fcil controlar o caixa?

por Claudio Dantas S - Sem dvida. Voc tem no mximo 30 financiadores. Mas tambm no  fcil, pois muita gente quer ajudar sem aparecer. Houve um caso de um supermercado que doou R$ 300 mil para o prefeito Luciano Ducci (atual prefeito de Curitiba). Da as campanhas adversrias passaram a acus-lo de receber benefcios da prefeitura. Ele acabou doando mais R$ 50 mil para cada um dos demais candidatos. As pessoas ficam com medo da exposio. A sada  fazer a doao p 

Isto - O sr. esteve no PSDB por sete anos. Como avalia a situao do partido e da oposio hoje aps derrota de Jos Serra em So Paulo?

por Claudio Dantas S - Todos os partidos precisam de renovao, mas no  fcil fazer isso. O PSDB nacional sempre foi solidrio comigo, mas aqui eles no quiseram brigar com o governador.  muito difcil oxigenar a organizao partidria. O PSDB tem bons quadros, mas vive em brigas internas.  refm dessa lgica e no encontrou mecanismos para resolver isso. Ser oposio no Brasil tambm no  nada fcil. No Pas, h uma cultura de adeso ao poder.

Isto - Por sua experincia na oposio, qual o caminho para ela voltar a ser governo?

por Claudio Dantas S - No sei se no curto prazo, mas tem que ter projeto. Se no tiver clareza, no tem sucesso.  um erro a oposio imaginar que vai ganhar s no desgaste do governo. O eleitor deu sinal agora de que est em busca de alternativas. Mas isso no se constri numa campanha. As lideranas de alguns partidos tm que estar na rua j. No digo fazendo passeata, mas tomando posio. Tem que ter clareza. tomar lado, ter bandeira, discurso definido, lideranas definidas. O PSDB deveria ter agido antes, no deixar para definir s no ano eleitoral. E  um erro ficar apostando na tragdia do governo.

